Sobre a inevitabilidade de mudança no desenvolvimento pessoal.
Há uma coisa estranha que acontece quando passamos por uma
transformação real. E esta transformação não foi superficial, foi total, mudar
de hábitos, de trabalho, de casa, de local onde normalmente faço as compras, de
tudo basicamente — mas a mais significativa foi aquela que aconteceu dentro,
nas camadas mais fundas, onde habitam as crenças, os medos, a forma como nos
vemos e vemos o mundo.
A coisa estranha é que, quando nós mudamos, o mundo à
nossa volta, percebe isso, mas ainda nos trata como quem éramos e nem sempre
está preparado para a nossa nova versão.
Passei por um período de muitos desafios — internos e
externos. Coisas que me deitaram abaixo de formas que achei que já não era possível
cair, dado que, já tinha acontecido muitas vezes antes, e tinha ficado mais
forte, e achava-me empoderada.
Mas, caí, e levou um tempo para recuperar, mas ao levantar —
porque nos levantamos sempre, duma forma ou de outra — percebi que não era a
mesma pessoa, não reajo das mesmas formas, não tenho os mesmos padrões de
comportamento, nem de pensamento.
E desta vez de forma dramática, com fanfarra e tudo. Sinto-me
simplesmente... diferente. Mas ao mesmo tempo, como sempre acontece no nosso
desenvolvimento, sinto-me mais eu, paradoxalmente, do que alguma vez fui.
Fui ao chão. E de lá a vista sobre todas as coisas da
nossa vida, é diferente e essa perspectiva permite ver tudo, com outros olhos.
Sim dói um bocado, como qualquer queda. Mas ao levantar, não era mais a mesma.
Não porque me tivesse partido — mas, mais porque me tivesse encontrado.
E então começou a segunda parte, a que ninguém avisa que
existe, e nos esquecemos, mas aos poucos se sente, como um bater numa parede, ter
de renegociar quem se é perante todas as pessoas que já nos conheciam, que
podem não estar preparadas para a nova versão.
A IMAGEM CONGELADA
Quando conhecemos alguém, guardamos uma imagem deles. Uma
fotografia mental, tirada num momento específico, ou várias fotos, ao longo de
muito tempo, que pintam um quadro. E esse quadro que existe dentro de nós,
muitas vezes sem atualização, como se a pessoa tivesse ficado suspensa no tempo
dos primeiros encontros ou da memória mais forte.
O problema é que as pessoas não ficam suspensas. Mudam.
Crescem. Ou recuam. Ou simplesmente tornam-se outras versões de si mesmas —
como é suposto acontecer.
Quando reencontramos alguém depois de anos, ou quando
continuamos com alguém ao longo dos anos, há um momento subtil mas poderoso em
que se decide, vejo a pessoa que está aqui, ou a fotografia que guardo?
A maioria das pessoas, sem se aperceber, escolhe a
fotografia. É mais fácil. É familiar. E isso pode ser injusto para o outro, e pode-se
perder muito na relação.
E a parte que toca muito profundamente é que manter a imagem
do outro, é um pouco também, manter a nossa própria imagem congelada. Portanto é
também mais seguro para a identidade de quem olha continuar a ver a mesma imagem.
Porque nós, vemo-nos a nós mesmos, através dos outros.
Porque se eu mudei... o que é que isso diz sobre os anos que
passámos juntas? Sobre as escolhas que ela fez ao meu lado, usando a minha
versão antiga como referência? Se eu já não sou aquela pessoa, o que é que isso
muda na história que ela conta sobre si própria? Ou sobre mim? Vira momentaneamente
tudo muito confuso.
Às vezes, manter a nossa imagem congelada não é sobre
nós. É sobre a necessidade deles de manter a sua própria narrativa
estável.
CRESCER PARA ALÉM — NAS DUAS DIREÇÕES
Há algo ainda mais delicado aqui, que é a tal coisa, a mais
que aprendi, e que descobri olhando honestamente para mim mesma, também eu faço
isto aos outros.
Também eu guardo imagens congeladas de pessoas. Também eu,
ao reencontrar alguém que me magoou no passado, ou alguém que conheci numa fase
muito diferente, o trato como era — não como é. E ao fazer isso, sem
querer, não lhe permito ser a nova versão que talvez já seja.
Puxo-a para trás. Para o papel antigo. Para a dinâmica
antiga. E isso não é justo — nem para ela, nem para mim, que fico presa a uma
relação que já não existe com uma pessoa que já não existe.
Fazemos isso, no dia a dia, fazemos isso, em relações
positivas e saudáveis, que se tornam tóxicas, queremos manter-nos com a pessoa,
pela imagem positiva que temos dela, do início (super comum), e ao contrário
também, alguém que era imaturo, juvenil, tratou-nos menos bem, um bully,
e encontramos essa pessoa na rua, 30 anos depois, e o que sentimos? Não vemos a
pessoa ali à nossa frente, vemos o Bully.
Isto é o que se chamo de aprisionamento mútuo.
Dois seres que mudaram, mas que continuam a dançar uma coreografia velha —
porque é a única que ambos conhecem juntos. E quanto mais o tempo passa, mais
aquela dança parece estranha, forçada, vazia.
Ao tratar alguém como era, não lhe permites ser quem é
agora. E ao deixares que te tratem como eras, fazes o mesmo a ti mesma.
Em inglês existe uma expressão que não tem tradução perfeita
em português, que é outgrowing someone. Crescer para além de
alguém. Não no sentido de ser melhor — mas no sentido de que o crescimento
tomou uma direção que a relação não consegue acompanhar.
Acontece. É doloroso. E é completamente natural.
O que raramente se fala é que isto funciona nas duas
direções.
Às vezes somos nós que crescemos para além dos outros — e
sentimos a solidão de já não encontrarmos eco nas conversas que antes nos
nutrían.
Às vezes são os outros que crescem para além de nós — e a
dor aí é diferente, mais silenciosa, mais confusa. Uma sensação de ficar para
trás sem perceber bem porquê.
E às vezes — e esta foi uma das descobertas que mais me
tocou — somos nós que impedimos os outros de crescer, ao
continuarmos a vê-los com os olhos do passado. Ao exigirmos, sem palavras, que
permaneçam quem eram para que nós possamos permanecer quem éramos.
O QUE MUDA NAS RELAÇÕES QUANDO MUDAMOS
Quando passamos por uma transformação verdadeira, as
relações à nossa volta entram numa espécie de teste silencioso. Não
intencional, não dramático — mas real.
Algumas pessoas ficam. Não porque não percebam que mudámos —
mas porque têm flexibilidade suficiente para querer conhecer a nova versão.
Para renegociar a relação. Para dizer, mesmo que sem palavras: "ok,
és diferente — e eu quero continuar a descobrir quem és."
Essas relações aprofundam-se. Tornam-se mais ricas, porque
sobreviveram à mudança.
Outras pessoas não ficam. Não porque sejam más pessoas — mas
porque a relação que tinham era com a versão antiga. E essa versão já não
existe para sustentar o que havia entre nós. A relação não acabou por
falta de amor. Acabou por falta de terreno comum.
E tem de haver vontade e querer de ambas as partes, para que
florescça novamente, como uma planta, que nasce, cresce, morre, mas deita sementes,
que são novas possibilidades imensas, de novas plantas crescerem. É preciso ter
alguma paciência, tempo, e permitir que essas sementes germinem e cresçam. E
uma nova relação se forme, com as mesmas pessoas, que já não são, as mesmas.
Assim se desenvolvem as relações mais fortes.
E há ainda as relações que ficam em suspensão — num limbo
estranho onde nenhum dos dois sabe bem o que fazer com o que mudou. Essas são,
muitas vezes, as mais difíceis de navegar.
Certamente, em várias ocasiões, com várias pessoas já
tiveste, pensamentos como: "de repente mudou", ou "nunca
foi o que eu pensava" (para o bem e para o mal). Deixa-me responder
honestamente, as pessoas desenvolvem para o que são verdadeiramente, e muitas
vezes nem elas mesmas sabem o que isso é.
E esse é um pouco o meu caso. Eu não conhecia totalmente a
pessoa que iria sair da queda, mas sabia que muito iria mudar, porque a pessoa
anterior que eu era, provocou a queda, ela é responsável por ter feito escolhas
para si mesma, que a deitaram abaixo, e eu responsabilizo-me por ter feito
essas escolhas, a culpa não existe, não é de ninguém, é apenas a vida, mas a
responsabilidade de aprender, de ganhar sabedoria, e com isso mudar, isso sim é
minha.
Eu tenho uma forma silenciosa de lidar com os meus desafios
internos. Sou muito extrovertida, mas quando o assunto é cura, eu recolho-me.
Houve desafios que não partilhei todos, em noites difíceis, em momentos de
colapso que foram também momentos de reconstrução. O que vês agora é o
resultado disso — não uma traição ao passado, mas uma continuação dele.
UMA NOTA PARA QUEM ME CONHECE HÁ MUITO TEMPO E MESMO
SÓ HÁ ALGUM
O que te peço — o que peço a todas as pessoas na minha vida
— é, tenta ver-me como sou agora. Não precisas de apagar a
memória de quem fui. Mas deixa que essa memória coexista com a pessoa que está
aqui.
E eu farei o mesmo por ti. Olharei para ti com olhos novos
também. Tentarei não te prender à fotografia que guardo — porque mereço ser
vista, e tu mereces o mesmo.
A individuação não é uma rejeição, nem deve ser uma ofensa
ao outro. É um pré-requisito para qualquer relação real. Só podemos
verdadeiramente encontrar-nos quando cada um de nós está presente como pessoa
inteira — não como o papel que o outro nos atribuiu.
O papel que eu tinha na tua vida, talvez fosse muito
importante para ti, um espelho, um amigo, uma inspiração, uma âncora, um
pisa-papéis, o que for, e eu valorizo, e sou grata por tudo isso, mas há mais
possibilidades prontas a germinar, crescer e florir.
Há uma coisa que não vou mais ser — e não é novidade total,
porque tenho vindo a construir isso nos últimos dois anos e meio.
Não vou mais ser o regulador emocional de ninguém.
Não vou mais sustentar dinâmicas onde dou
incomensuravelmente — porque me sai natural dar — e o outro interpreta isso
como obrigação minha. Como se a minha abundância fosse uma dívida que lhe
pertence.
Não vou mais ser bengala. Âncora. Suporte onde alguém pousa
o peso que deveria aprender a carregar.
O que mudou não é a minha generosidade. O que mudou é o
que aceito em troca.
Agora, quando alguém precisa, não me ponho debaixo do braço
dele. Fico ao lado — e aponto para dentro dele. Porque o bem-estar de alguém
não pode depender de mim. Isso não é amor. Isso é uma prisão para os dois.
O meu papel já não é segurar. É desafiar. Já não sou o porto
seguro onde se fica parado. Sou, o vento que empurra para o mar, mas dou-te um
barco e dois remos, que são os conhecimentos que transmito, mas tens de agarrar-te
a ti e remar.
ISTO NÃO É REJEIÇÃO. É UM CONVITE
Dito isto — e digo-o com amor genuíno —ninguém nasce a saber
regular-se, nem eu nem ninguém. Ninguém aprende autonomia emocional,
energética, espiritual, física até sem primeiro ter dependido de alguém. Eu
também dependi. Também usei pessoas como bengala sem perceber que o estava a
fazer. Eu cometi erros, e erros foram cometidos, e é isso que trás sabedoria,
se assim o utilizarmos e vermos.
Por isso não falo disto com julgamento. Falo com
reconhecimento. Reconheço o que fiz, o que permiti que fosse feito. Eu criei as
dinâmicas. Eu gostava genuinamente das dinãmicas. Eu sentia-me bem, feliz,
preenchida, contente. Apenas simplesmente, o ciclo terminou, com uma queda, que
me veio trazer mais conhecimentos.
E acredito — genuinamente — que toda a gente tem o que
precisa para se desenvolver, sim aprendemos com os outros, com os outros
ganhamos conhecimentos, mas é com a experiência que ganhamos sabedoria.
Por isso o que ofereço agora não é menos. É mais e é diferente.
É o espaço, o espelho, o desafio honesto.
E eu acredito mais em mim agora, que acreditava há meia
dúzia de meses atrás, e isso, é bom, não achas?
Não é compararmo-nos e dizermos que queremos ser como o
outro, mas sim, olharmos o outro a ser mais ele mesmo, e dizermos, eu quero ser
mais eu também.
E é isso que quero para ti. Simples assim.
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