A realidade muda… ou somos nós que mudamos a forma como interagimos com ela?

 


A realidade muda… ou somos nós que mudamos a forma como interagimos com ela?

Uma das ideias que mais encontro em livros sobre consciência, espiritualidade e desenvolvimento pessoal é a afirmação de que a realidade responde ao observador. Muitas vezes, esta ideia é levada ainda mais longe: quando expandimos a consciência, diz-se que a realidade muda, adapta-se, responde e até "faz glitches", como se o próprio universo estivesse constantemente a reescrever-se em função de quem o observa.

Embora esta linguagem seja intuitivamente apelativa, penso que ela mistura duas coisas diferentes: a realidade em si e a forma como nos relacionamos estruturalmente com ela.

No Estruturalismo Fractal, não é necessário assumir que a realidade muda para explicar porque é que a nossa experiência muda.

O que muda, em primeiro lugar, somos nós.

Quando alteramos a nossa organização interna — as nossas emoções, os nossos padrões de pensamento, a forma como interpretamos a informação e as decisões que tomamos — alteramos inevitavelmente a forma como interagimos com o mundo.

E quando mudam as interações, mudam também as trajetórias possíveis.

Não porque o universo tenha decidido responder-nos, mas porque passámos a ocupar uma posição estrutural diferente dentro do sistema.

É semelhante ao que acontece numa cidade.

Se todos os dias percorro exatamente o mesmo caminho para o trabalho, encontro sempre as mesmas ruas, os mesmos cruzamentos, os mesmos cafés e as mesmas pessoas. Posso concluir que "a cidade é sempre igual". 

Mas basta escolher uma rua diferente para descobrir bairros que nunca tinha visto. A cidade não mudou. O mapa continuava lá. O que mudou foi a trajetória que escolhi percorrer.

A realidade funciona de forma semelhante.

As possibilidades já existem como parte da estrutura do sistema, mas nem todas são igualmente acessíveis a partir da configuração em que nos encontramos.

Quando reorganizamos essa configuração, novas possibilidades tornam-se alcançáveis, enquanto outras deixam de o ser.

É por isso que, muitas vezes, sentimos que "a vida mudou" depois de uma transformação profunda.

Na verdade, aquilo que mudou foi a nossa posição estrutural dentro da realidade.

Entrámos numa região diferente do espaço de possibilidades.

É também por isso que não considero particularmente útil falar de "glitches na realidade".

Quando começamos a observar padrões que antes nos passavam despercebidos, pode parecer que o mundo se tornou estranho ou que a realidade começou a responder de formas inesperadas.

Mas aquilo que mudou não foi o funcionamento do universo.

Mudou a nossa capacidade de reconhecer estruturas que sempre estiveram presentes.

É semelhante a aprender uma nova língua.

Antes de a conhecer, um texto escrito nessa língua parecia um conjunto aleatório de símbolos. Depois de aprendermos a lê-la, o texto transforma-se em significado. Não foi o livro que mudou. Foi a nossa capacidade de o interpretar.

O mesmo acontece com a realidade.

Quanto maior é a nossa capacidade para reconhecer padrões, relações e estruturas, mais informação conseguimos extrair daquilo que sempre esteve diante de nós.

A realidade não precisa de "responder" ao observador.

Basta que o observador mude a forma como participa nela.

Esta distinção pode parecer subtil, mas altera profundamente a forma como entendemos a transformação.

Se acreditarmos que é a realidade que muda em resposta à nossa consciência, permanecemos dependentes de um mecanismo externo que não conseguimos explicar.

Mas se compreendermos que é a nossa organização estrutural que muda, então a transformação deixa de ser um fenómeno misterioso e passa a ser um processo natural dos sistemas complexos.

Não é a realidade que se reescreve.

É a nossa relação com ela que se reorganiza.

E, ao reorganizar-se, abre acesso a possibilidades que antes permaneciam estruturalmente inacessíveis.

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