A Neutralidade como Estado de Criação


Durante muito tempo acreditei que o objetivo da vida era sentir-me cada vez melhor. Procurar mais felicidade, mais entusiasmo, mais experiências positivas. Mas, com o tempo, comecei a perceber que talvez a questão nunca tenha sido essa. Talvez o verdadeiro poder esteja noutro lugar.

Tenho pensado sobre a forma como nos deixamos levar pelas emoções. 

Pela facilidade com que subimos quando tudo corre bem e caímos quando as coisas mudam. 

E comecei a perceber que talvez exista um lugar diferente a partir do qual podemos viver a realidade. Um lugar que não é de indiferença nem de ausência de emoção, mas de verdadeira neutralidade.

E se o segredo não fosse sentir apenas emoções positivas? E se a verdadeira capacidade de criar a realidade que desejamos dependesse, não da intensidade das emoções, mas da nossa capacidade para as observar sem sermos dominados por elas?

A verdade é que eu já não me permito entrar demasiado alto em emocionalidade. E penso que isso é que aumenta mais a frequência energética. Isto é, não me deixo levar por uma felicidade extrema, por aquele entusiasmo tão tipicamente humano, porque já sei que aquilo que estou a viver é apenas um momento. 

Todos conhecemos os ditados que dizem que, quanto maior a subida, maior a queda, e tem aqui uma razão de ser, e não é, nunca ser feliz. Não é nada disso. Mas há aqui uma sabedoria ancestral a resgatar.

É simplesmente aproveitar o momento, sem nos entregarmos a ele, ao ponto de nos perdermos nele.

Por isso, mesmo quando estamos a viver algo muito bom, chega um momento em que temos de parar e regressar à neutralidade, que não significa deixar de me sentir bem e feliz, mas sim, observar tudo pelo lado de fora, absorver tudo, como quem vê de cima, ou de fora, uma visão periférica.

A diferença é a consciência. Consciência tras consigo memória e desapego. Lembramo-nos que aquele é um momento apenas, em milhões e milhares de momento, e o desapego pois sabemos, somos inteligentes o suficiente para saber que aquele momento tem um limite de tempo, um início e fim, um alfa e um omega, e em nada isso desmerece o momento. 

Pelo contrário, valorizamos mais. 

Enquanto vivemos uma realidade como esta, não faz sentido deixarmo-nos elevar demasiado pelos momentos bons, nem afundarmo-nos por causa dos momentos maus. Mantemos o discernimento, e a coerência ao usar a inteligência e a consciência.

Porquê isso? Para ter controlo real. Esse é o controlo real que podemos ter. A neutralidade que advém da consciência permite-nos criar a nossa realidade e navegar pelas várias possibilidades e linhas temporais disponíveis.

O objetivo é permanecer naquele lugar a partir do qual conseguimos manifestar conscientemente a nossa realidade, pelo posicionamento, e isso requer presença real, o contrário de perdidas no momento, é encontradas e a saber excatamente onde. 

Esta capacidade, quer em momentos bons ou maus, agradaveis ou desagravadeis, é o que nos permite, é o lugar a partir do qual conseguimos sair da linha temporal em que estamos e, possivelmente, criar uma nova. Abrimos espaço. Ao sair de dentro da emocionalidade, abrimo-nos para um espaço de possibilidades diferente. 

Porque não conseguimos criar uma nova linha temporal se estivermos a agir a partir de um determinado intervalo de emoções. A escala de emoções é fechada e actua dentro de padrões fixos da realidade, só andamos para cima e para baixo dentro dessa escala.

Claro que podemos sentir-nos incomodados com alguma situação, e esse desconforto pode servir de motivação para mudar. Mas mudar a situação, geralmente não acontece dentro do estado emocional, mudar a situação não pode nascer da raiva, da tristeza ou de qualquer uma dessas emoções às quais normalmente damos um nome.

Tem de nascer da neutralidade que advém da observação integral de tudo.

E essa neutralidade é, na verdade, um estado positivo. Aliás, é mais do que simplesmente positivo.

Quando dizemos "neutro", parece que estamos a falar de algo que não é nem uma coisa nem outra. Mas essa palavra não faz verdadeira justiça ao que este estado realmente é.

Porque, na realidade, a neutralidade é um estado de criação.

É um estado de poder criador.

É o estado que nos dá a capacidade de criar conscientemente a realidade que queremos viver.

É uma neutralidade em que sabemos tudo.

Sabemos aquilo que nos faria felizes.

Sabemos aquilo que nos faria sentir tristeza.

Sabemos aquilo que despertaria qualquer emoção.

Mas, ao mesmo tempo, estamos conscientes de tudo isso.

É como dizer: "Eu sei tudo isto e estou consciente de toda a escala ao mesmo tempo."

Tenho consciência de toda a escala emocional.

Observo-a de fora.

E é precisamente aí que está a diferença.

A neutralidade não é ocupar o ponto intermédio da escala das emoções.

Não é estar exatamente entre o positivo e o negativo.

É algo completamente diferente.

É observar toda a escala emocional.

Ver todo o espectro.

Ver o máximo e o mínimo e todo o intermédio.

E, ao observar o todo, surge uma neutralidade completamente diferente.

Uma neutralidade que nasce da observação, da consciência, do conhecimento e da presença.

Uma neutralidade que resulta de observar toda a escala emocional de fora, em vez de estar perdido dentro dela.




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